domingo, 6 de junho de 2010

Uma luz no fim do Mundo



Os meus olhos cruzavam o caminho de pálpebras que ocultavam belíssimos olhos que evitavam mergulhar nestes meus olhares descontrolados, escondendo a cada minuto mais um inevitável vislumbrar, tentando capturar um outro olhar que tardava em me fitar. Por fim, o olhar pelo qual os meus olhos desesperavam, olhou-me nos olhos como nenhuns outros olhos me haviam antes perscrutado, com olhos de fogo e de mar, pelos quais os meus olhos ofereceram um longo e intenso mirar.

quinta-feira, 27 de maio de 2010


Herzeleide Mortensen pegou nas pétalas caídas no chão do seu quarto e lançou-as pela janela, esperando reencontrar, lá em baixo, os olhos da sua amada, que logo as recolheria quando ainda estas pairavam no ar, conseguindo sempre - e ele nunca soube como - reconstituir a corola da flor, ostentando-a de seguida numa mão triunfante. Sempre foi assim, mas já não o era. Todavia, ao fixar dolorosamente o vazio, verificou que as pétalas haviam desaparecido, dando lugar a uma flor que havia surgido repentinamente na terra húmida, erguendo-se firme, tal como a sua esperança.

domingo, 7 de março de 2010

WAGNER - Parsifal




Ouvi hoje, pela 3ª vez, a versão de Rafael Kubelik de Parsifal, de Richard Wagner. Uma versão única e de tal forma coerente, que se torna perfeitamente desnecessário seguir o enredo através do libreto.

A prestação dos solistas é soberba - contando com intérpretes como Weikl, Moll, Salminen, Minton, Mazura, entre muitos outros, que são acompanhados pelo Coro e Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera e pelo Coro de Rapazes de Tölz, num registo de 1980, que ganha bastante a nível da qualidade sonora, até mesmo pelo facto de não ter sido gravado ao vivo, rivalizando e ultrapassando outros registos da mesma época - tal como o do aceleradíssimo Pierre Boulez, em Bayreuth.

Os contrastes instrumentais e vocais, estão bem definidos, com texturas isoladas que se debatem ao longo de toda uma viagem musical, repleta de momentos de pompa violentamente militarista, abraçando outros, de plena contemplação em que o tempo estagna, enredando-nos em melodias voláteis e de tal forma etéreas que, facilmente contornam a atmosfera melancólica que lança no ar excrescências de frágeis recordações de um tempo que nunca existiu e que jamais nos pertenceu.

O poder desta versão faz com que nem sequer ouçamos o sussurro herético de Nietzsche a insurgir-se contra o véu de ilusão e simbologia cristã típica de Wagner, e neste caso, essencialmente destacado pelo tema da Redenção de Kundry - a mulher que, por se ter rido de Cristo no momento da crucificação, foi condenada a errar perpétuamente pelo Mundo, até ao final dos tempos.

Se Parsifal fosse uma ópera, arriscar-se-ia a receber o estatuto da "melhor de sempre".
Mas esta "Representação Sacro-Dramática, em 3 actos", como o autor preferia denominar, encontra-se num domínio à parte, indefinível, de impossível rotulagem e que, por este e por inúmeros motivos, suscita paixões intemporais.